Michelle Bolsonaro abre fogo contra aliança com Ciro Gomes: ‘Não terá meu apoio nunca e, na minha opinião, não deveria ter de ninguém da Direita’
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tornou público um duro desabafo sobre os bastidores da Direita brasileira, revelando divergências internas no campo bolsonarista e direcionando críticas a lideranças do Partido Liberal (PL), ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e à aproximação de setores da legenda com o pré-candidato ao Governo do Ceará Ciro Gomes (PSDB).
Em uma longa manifestação em um vídeo nas redes sociais, Michelle afirmou que decidiu romper o silêncio diante do que classificou como ataques promovidos por pessoas que se apresentam como defensoras e aliadas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo ela, há uma tentativa de distorcer fatos e esconder decisões tomadas nos bastidores do Partido.
“Eu tentei ficar quieta, mas percebo a maldade de alguns que se dizem defensores e aliados do meu marido. Sem respeito, sem pudor, sem vergonha. A verdade vai iluminar o que foi escondido na escuridão das notícias falsas e dos ataques irresponsáveis”, declarou Michelle.
A presidente nacional do PL Mulher relembrou sua chegada ao comando da ala feminina da legenda e afirmou que encontrou uma estrutura praticamente inexistente. Segundo Michelle, o movimento precisou ser reconstruído desde o início e, em poucos anos, se transformou no maior movimento partidário feminino do país.
Ela destacou que, sob sua gestão, o partido registrou crescimento expressivo na participação feminina nas eleições municipais de 2024, com a eleição de 1.005 mulheres, número que, segundo ela, representa um aumento de 48,8% em relação ao pleito de 2020.
Michelle também rebateu críticas sobre sua atuação política e disse ter assumido a missão mesmo sem experiência partidária anterior. De acordo com ela, os ataques partiram justamente de pessoas que, durante anos, se beneficiaram politicamente da imagem de Bolsonaro.
Disputa no Ceará e defesa de Eduardo Girão
Grande parte das críticas da ex-primeira-dama foi direcionada ao cenário político do Ceará. Michelle reafirmou seu apoio ao senador Eduardo Girão (NOVO-CE), pré-candidato ao governo estadual, alegando que ele representa de forma mais fiel as pautas defendidas pela direita conservadora.
“O senador Eduardo Girão é uma pessoa diferenciada, é o único verdadeiro representante das pautas da direita na disputa pelo Governo do Ceará. No dia do lançamento da sua pré-candidatura estavam presentes vários representantes do PL, inclusive o presidente estadual André Fernandes. Fiquei até feliz. Eu pensei, talvez haja uma chance de o Partido apoiar Girão no primeiro turno. Não se trata de interferência, mas uma mostra do que seria mais coerente, mas fiel aos nossos valores. E era só isso que eu e o meu marido queríamos. No segundo turno, os nossos eleitores pessoas de bem poderiam se unir a todos os demais para derrotar o candidato do PT”, ponderou Michelle.
Segundo ela, a aproximação de lideranças do PL cearense com Ciro Gomes contraria os valores defendidos pelo bolsonarismo.
Michelle argumentou que Ciro foi um dos principais adversários políticos de Jair Bolsonaro nos últimos anos e relembrou declarações feitas pelo ex-ministro durante a pandemia e em campanhas eleitorais, quando criticou duramente o ex-presidente e seus familiares.
“Durante a pandemia , numa live com outros esquerdistas, ele (Ciro Gomes) incentivou e conclamou as pessoas a chamarem o meu marido de genocida”. E continuou Michelle, ele chamou o meu marido de ladrão de galinhas. De corrupto. De burro. De jumento. Disse que Bolsonaro roubava gasolina. Disse que as esposas de Bolsonaro seriam todas ladras. Disse que os filhos de Bolsonaro, os meus enteados, eram corruptos. Que eram ladrões. E deu a eles um apelido: ovos de serpente nazistóides. E agora como se nada tivesse acontecido, os filhos defendem uma aliança com o candidato que deixou o pai deles inelegível e humilhado”, afirmou Michelle.
A ex-primeira dama ainda declarou que “durante a pandemia Ciro ainda insinuou que pastores e padres que prestassem assistência religiosa às pessoas deveriam ser presos. E quando vieram as arbitrariedades, as prisões, as condenações injustas do 8 de janeiro, incluindo a de Bolsonaro. O Ciro Gomes se alegrou”, disse.
Para a ex-primeira-dama, uma eventual aliança com Ciro ainda no primeiro turno representaria uma incoerência política e uma ruptura com os princípios defendidos pelos apoiadores de Bolsonaro.
Defesa de candidatura feminina gera novo embate
Outro ponto central da manifestação foi a defesa da candidatura da vice-presidente nacional do PL Mulher, a vereadora Priscila Costa (PL-CE) ao Senado Federal em 2026.
Michelle afirmou que a indicação de Priscila foi resultado de uma decisão conjunta entre Jair Bolsonaro, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e ela própria. Segundo seu relato, havia um acordo para que a disputa pelas vagas ao Senado no Ceará incluísse Priscila e o pai do deputado federal André Fernandes, o Pastor Alcides Fernandes (PL-CE).
“Eu preciso parar aqui e fazer uma pergunta: Se André queria agradar Ciro Gomes, porque ele não ofereceu a vaga do seu próprio pai? Será que ele acha que retirar a vaga de uma mulher seria mais justo?” Disse Michelle.
Michelle argumentou que Priscila Costa, tinha acabado de ser vereadora, mas ajudou e se dedicou a André Fernandes, nas campanhas eleitorais. “O trabalho de Priscila levou André a outro patamar e o que ela levou em agradecimento foi perseguição e desprezo”, disse a ex-primeira dama.
De acordo com Michelle, após a prisão de Bolsonaro, aliados passaram a atuar para retirar Priscila da disputa e abrir espaço para negociações políticas envolvendo Ciro Gomes.
A presidente do PL Mulher classificou a movimentação como uma tentativa de enfraquecer a representação feminina dentro do partido e afirmou que tem travado uma “batalha diária” para garantir candidaturas de mulheres ao Senado.
Ela destacou que, das 54 vagas que estarão em disputa na Casa em 2026, comparou a aplicação da regra dos 30% para as candidaturas femininas, segundo ela teriam direito a 17 vagas para mulheres no Partido. E declarou: “Eu pedi apenas três vagas: Priscila Costa, Carol de Toni e Bia Kicis”.
Críticas a Flávio Bolsonaro expõem conflito familiar
O momento mais contundente da manifestação ocorreu quando Michelle relatou um desentendimento com o senador Flávio Bolsonaro.
Segundo ela, após retornar a Brasília de um evento político no Ceará, encontrou publicações de Flávio nas redes sociais defendendo André Fernandes e criticando sua posição sobre a possível aliança com Ciro Gomes.
Michelle afirmou que o senador não buscou conversar com ela antes de tornar pública sua discordância e disse ter sido “tratada de forma ríspida durante uma conversa telefônica”.
Ainda segundo seu relato, Flávio teria sugerido que “ela se mantivesse afastada das decisões partidárias por não possuir experiência política suficiente”.
A ex-primeira-dama reagiu destacando os resultados obtidos à frente do PL Mulher e afirmou que sua atuação ajudou a consolidar a presença feminina da legenda em todo o país.
Acusações de traição e defesa da “coerência”
Ao longo do pronunciamento, Michelle reiterou diversas vezes que sua posição não está relacionada a disputas pessoais, mas à defesa da coerência política do movimento conservador.
Ela afirmou que Jair Bolsonaro teria determinado que Priscila Costa fosse mantida como candidata ao Senado e declarou que qualquer tentativa de descumprir essa orientação configuraria uma traição ao ex-presidente.
“Priscila será candidata o numero 222 será dado a ela”, disse Michelle descrevendo que enquanto Jair Bolsonaro estava preso no 19° Batalhão mandou um recado claro que foi repassado a direção do Partido e ao senador Rogério Marinho.
“É para se unir a pessoa como essa que o PL do Ceará esta abandonando um candidato da direita? É para se unir a esse homem que estão perseguindo e tentando retirar da disputa uma mulher nordestina, mãe de quatro filhos, que dedicou tudo ao movimento em defesa da vida?” argumentou Michelle.
Michelle disse ainda ter o direito de achar errado uma aliança com quem sempre se declarou inimigo do pai deles. “Tenho o direito de ser coerente com os valores em que acredito. E não vou trocar valores por pragmatismo político oportunista. Ciro não terá meu apoio nunca e, na minha opinião, não deveria ter de ninguém da Direita que apoia Bolsonaro”.
Apesar das críticas, Michelle afirmou não exigir o rompimento imediato de alianças políticas no Ceará. Segundo ela, a união entre diferentes grupos da direita poderia ocorrer em um eventual segundo turno contra um candidato apoiado pelo PT.
Para a ex-primeira-dama, no entanto, os eleitores conservadores devem ter a oportunidade de apoiar, no primeiro turno candidaturas que representem integralmente os valores defendidos pelo bolsonarismo.
Foto da matéria em destaque: Michelle Bolsonaro(PL Mulher) Imagem: Redes Sociais.
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