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COP30 em Belém expõe contradições do discurso verde e da política ambiental do governo Lula

A cidade de Belém, capital do estado do Pará, se prepara para receber, entre os dias 10 e 21 de novembro, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), o maior e mais importante evento mundial sobre o tema. É a primeira vez que uma cidade brasileira sedia a conferência, que ocorre dez anos após a assinatura do Acordo de Paris, assinado por 195 países, marco global no combate ao aquecimento do planeta.

Antes mesmo da abertura oficial, líderes de todo o mundo se reuniram nesta quinta (06/11) e também nesta sexta-feira (07/11), durante a Cúpula dos Líderes, etapa preparatória que define as diretrizes das negociações e metas climáticas que pautarão as discussões da COP30, além de demonstrar compromisso político com o enfrentamento da mudança do clima. 

A conferência deve reunir chefes de Estado, diplomatas, especialistas e ativistas ambientais de quase 200 países — as chamadas “Partes” da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima, firmada na Rio-92, no Rio de Janeiro. Foi dessa convenção que nasceram as COPs, cuja primeira edição aconteceu em Berlim, em 1995. Desde então, o evento se tornou o principal fórum internacional para discutir metas de redução de emissões de gases de efeito estufa e estratégias de adaptação à crise climática.

Desafios e ausências

Embora o evento simbolize um marco para o Brasil, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já anunciou que não deve comparecer à conferência, decisão que gera críticas entre ambientalistas e diplomatas por enfraquecer o protagonismo global nas negociações.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou recentemente que “ultrapassar a meta de 1,5°C” estabelecida pelo Acordo de Paris é inevitável, o que aumenta a pressão sobre os países para apresentarem planos mais ambiciosos e concretos.

Contradições e críticas ao governo Lula

Apesar do destaque internacional que o Brasil busca com a realização da COP30, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem sendo alvo de fortes críticas de ambientalistas.

Lula, se apresenta como defensor da Amazônia e do enfrentamento às mudanças climáticas, mas, assinou em 28 de agosto de 2025 o Decreto nº 12.600, que inclui três hidrovias amazônicas no Programa Nacional de Desestatização (PND) — entre elas, a Hidrovia do Rio Tapajós, no Pará, região que Lula visitou no domingo (02/11), e não mencionou uma única vez a emergência climática ao longo dos 17 minutos de discurso que os jornalistas foram autorizados a acompanhar.

O decreto prevê a concessão de trechos estratégicos dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós para exploração privada, com o objetivo de facilitar o escoamento de grãos, especialmente soja, produzida em larga escala por indústrias do Mato Grosso e do Pará.

Art. 1º  Ficam incluídos no Programa Nacional de Desestatização – PND os seguintes empreendimentos públicos federais do setor hidroviário:

I – Hidrovia do Rio Madeira, considerada a navegação do Município de Porto Velho, Estado de Rondônia, até a foz com o Rio Amazonas, no Município de Itacoatiara, Estado do Amazonas, em um trecho de aproximadamente mil e setenta e cinco quilômetros;

II – Hidrovia do Rio Tocantins, considerada a navegação entre o Município de Belém, Estado do Pará, e o Município de Peixe, Estado do Tocantins, em um trecho de aproximadamente mil setecentos e trinta e um quilômetros; e

III – Hidrovia do Rio Tapajós, considerada a navegação entre o Município de Itaituba, Estado do Pará, até sua a foz com rio Amazonas, no Município de Santarém, Estado do Pará, em um trecho de aproximadamente duzentos e cinquenta quilômetros.

Ambientalistas denunciam que o projeto privatiza recursos hídricos fundamentais para comunidades tradicionais, ribeirinhas e indígenas, comprometendo modos de vida sustentáveis e a biodiversidade local. Segundo eles, “submeter um rio que é berço de vida a um programa de desestatização” representa uma afronta à soberania e à preservação ambiental.

Outra contradição, se trata do iate de luxo que abriga o presidente anfitrião, Lula, em Belém, durante a COP30, que consome entre 120 e 150 litros de diesel por hora, o que representa cerca de 3,6 mil litros por dia. O alto consumo de combustível contrasta com o discurso ambiental e de sustentabilidade que o governo pretende defender na conferência internacional sobre clima.

Além disso, ambientalistas destacam a recente decisão do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que, a cerca de 20 dias do início da COP30, concedeu licença à Petrobras para perfurar um poço exploratório em águas profundas do Amapá, na Margem Equatorial brasileira — região localizada a aproximadamente 500 quilômetros da foz do rio Amazonas e 175 quilômetros da costa. Organizações ambientais alertam que a atividade pode representar sérios riscos à biodiversidade marinha da área.

Reação dos povos indígenas e movimentos sociais

Nos dias que antecedem a conferência, povos indígenas e movimentos socioambientais intensificaram protestos em Belém, exigindo a demarcação imediata de 104 territórios indígenas em 18 estados brasileiros.

Entre o protagonismo e o paradoxo

Com o mundo voltado para Belém, o Brasil chega à COP30 dividido entre o discurso de liderança climática e as ações que favorecem a exploração econômica da Amazônia.

Enquanto a conferência promete marcar uma nova fase da diplomacia ambiental brasileira, as críticas de ambientalistas e comunidades locais expõem um dilema: como o país que sedia o maior evento climático do planeta pode, ao mesmo tempo, privatizar seus rios e abrir espaço para empreendimentos que ameaçam o equilíbrio ambiental que diz defender?

A resposta pode definir não apenas o papel do Brasil na COP30, mas também o futuro de sua própria floresta.

Por: Marcielle Vale – Jornalista com atuação na área política, especializada em cobertura de bastidores do poder, eleições e políticas públicas. Possui formação acadêmica em Gestão Ambiental, o que agrega uma perspectiva crítica e técnica às pautas relacionadas ao meio ambiente, sustentabilidade e governança.

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