Em meio à ameaça de tarifa de 25% dos EUA e mira ao Pix, Lula resgata fala de Flávio Bolsonaro e o chama de ‘traidor da pátria’
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante evento nesta terça-feira (02/06), em Catalão (GO), relembrou postagens do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atribuídas ao parlamentar relacionadas à política comercial dos Estados Unidos e o acusou de atuar contra os interesses nacionais, após ele afirmar na manhã de hoje que havia pedido para Trump não taxar o Brasil.
Ao se dirigir ao público, o presidente mencionou uma publicação feita por Flávio em 9 julho de 2025, após o presidente norte-americano Donald Trump anunciar medidas tarifárias que afetaram produtos brasileiros. Lula leu trecho da mensagem em que o senador teria agradecido a Trump e utilizado o slogan “Obrigado Trump, faça o Brasil livre de novo“, leu o presidente.
O chefe do Executivo também ironizou o encontro realizado entre Flávio Bolsonaro e Trump na semana passada. Em tom de crítica, Lula sugeriu que o senador teria buscado apoio externo para enfraquecer politicamente o governo brasileiro, repetindo estratégia semelhante à utilizada anteriormente em 2025 pelo irmão Eduardo Bolsonaro.
As declarações ocorreram horas após Flávio Bolsonaro afirmar, em entrevista, que havia solicitado ao presidente norte-americano que não aplicasse novas tarifas ao Brasil. Segundo o senador, a taxação prejudicaria empresas nacionais e setores estratégicos da economia.
“A gente tem que valorizar nossa tecnologia, nosso Pix, nosso etanol, que é uma energia limpa”, declarou o parlamentar.
Durante o discurso em Goiás, Lula reagiu às falas e classificou o adversário político como “traidor da pátria”. O presidente argumentou que eventuais sanções econômicas impostas ao Brasil não atingiriam diretamente seu governo, mas sim trabalhadores, empresários e consumidores brasileiros.
Em um dos momentos mais contundentes da fala, o petista fez referência a Joaquim Silvério dos Reis, conhecido por delatar Tiradentes durante a Inconfidência Mineira. Lula comparou a situação ao que considera “uma tentativa de interferência estrangeira em assuntos internos do país e criticou o que chamou de falta de coerência do senador ao negar declarações anteriores”.
“O que merecem os traidores da pátria que vão pedir intervenção de um país no nosso país? Pensem, pensem, meditem, porque esse cidadão (Flávio) hoje aparece lá em pé: ‘Eu não falei nada, eu não falei nada’. Todo covarde é assim, fala a merda que fala, e por não ter coragem de assumir o que fala, fica tentando mentir”, declarou Lula, sobre Flávio Bolsonaro.
A discussão ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Nesta segunda-feira (01/06) o governo norte-americano anunciou uma proposta de taxação de 25% sobre determinados produtos brasileiros. O documento divulgado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) aponta supostas práticas comerciais consideradas “irrazoáveis” por parte do Brasil. Entre os pontos mencionados está o sistema de pagamentos instantâneos Pix, citado mais de 20 vezes no relatório. Integrantes do governo brasileiro avaliam que o mecanismo se tornou um dos principais alvos das críticas apresentadas pelos Estados Unidos.
NOTA DO GOVERNO DO BRASIL
O Governo Federal divulgou a seguinte nota à imprensa nesta terça-feira (2):
“O Governo brasileiro manifesta indignação com a conclusão preliminar anunciada ontem (1/6) pelo USTR relativa à investigação da Seção 301 contra alegadas práticas comerciais desleais do Brasil.
Essa investigação teve início em 15 de julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país, como feito na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington. Essas investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais.
É lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o Governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos Presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares.
Não havia e não há justificativa para essas medidas unilaterais contra o nosso país ou contra patrimônios brasileiros como o PIX, mencionado explicitamente nas recomendações preliminares. Segundo estatisticas do “Bureau of Economic Analysis”, os EUA acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos (2011-2025). Só no ano passado, o superávit comercial de bens dos EUA com o Brasil totalizou US$ 14,46 bilhões. Considerando bens e serviços a cifra sobe a US$ 40,52 bilhões.
Em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação. Oito dos dez principais produtos importados dos Estados Unidos pelo Brasil tiveram tarifa efetiva zero, incluindo petróleo e derivados, aeronaves, gás natural e carvão. A alíquota média efetivamente cobrada dos produtos norte-americanos no Brasil foi de apenas 3,1%.
O principal efeito das tarifas unilaterais, politicamente motivadas, aplicadas ao nosso país tem sido impor danos à economia nacional e à geração de emprego e renda, além de diminuir o papel dos EUA como nosso parceiro comercial. No primeiro trimestre de 2026, a participação dos EUA nas exportações brasileiras atingiu o menor valor da série histórica ao somar 9,4%.
Conforme acordado pelos Presidentes Lula e Trump por ocasião da reunião em Washington no dia 7 de maio, estão em curso negociações tarifárias entre os dois países em busca de soluções que resultem no encerramento da investigação da Seção 301, previsto para 15 de julho, sem imposição de medidas contra o Brasil. O Governo brasileiro também dará continuidade ao diálogo com o setor privado com esse objetivo.
O Brasil se reserva o direito de recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, para fazer face a situações de injustiça contra o Estado brasileiro, sem amparo nas regras do comércio internacional.
O Governo reafirma a expectativa de que as recomendações não se convertam em tarifas efetivas, mas reitera que adotará toda e qualquer medida capaz de reduzir os danos que venham a ser causados à economia, aos empregos e à renda dos brasileiros.
É preciso estar atento aos traidores da pátria e trabalhar em defesa da nossa soberania e dos interesses do povo brasileiro”.
Foto da matéria em destaque: Presidente Lula em Catalão (GO), em 02/06/2026. Imagem: Ricardo Stuckert.
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